Cenários de risco e vulnerabilidades
associadas a deslizamentos

As áreas de risco de deslizamentos localizam-se principalmente em terrenos situados na borda da Bacia Sedimentar de São Paulo, em compartimentos geomorfológicos de rochas cristalinas da Morraria do Embu, que circundam a Bacia Sedimentar de São Paulo, a oeste, ao sul e a leste; e ao norte, no compartimento geomorfológico da Serrania de São Roque, de relevo mais montanhoso e cuja dinâmica de processos superficiais é bastante intensa (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 1999).
Essas áreas, que ocupam as encostas, concentramse nas regiões representadas pelas manchas de expansão urbana mais recente (principalmente das últimas três décadas) e estão associadas à ocupação de terrenos geotecnicamente mais suscetíveis a deslizamentos, localizadas nas regiões periféricas da Grande São Paulo.
Concentrações significativas de áreas de risco de escorregamentos ocorrem principalmente na zona sul do município de São Paulo, nas subprefeituras de Campo Limpo, Capão Redondo e Jardim Ângela. Na zona sul estão concentradas mais de 50% das favelas de São Paulo, sendo que apenas na subprefeitura de Campo Limpo, estão situadas cerca de 25% das favelas de todo o município. Ocupam áreas vulneráveis do ponto de vista geológico-geotécnico, com relevos de alta declividade constituídos predominantemente por rochas ígneas como gnaisses e migmatitos. Têm sido comumente verificadas nessa região, a cada ano, ocorrências de acidentes de escorregamentos, resultantes da construção e ocupação precária aliadas às condições naturais desfavoráveis do meio físico (declividade acentuada dos terrenos, ausência de vegetação, solo exposto) (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 1999).
Nas outras regiões, as áreas de risco apresentamse distribuídas na zona oeste na subprefeitura do Butantã; na zona norte, nas subprefeituras de Perus e Brasilândia; e na zona leste, nos bairros de Sapopemba, São Mateus, Jardim Maringá, São Rafael e Itaquera (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 1999).
Ainda na zona norte, onde estão concentradas 327 favelas, em terrenos de alta declividade, outrora ocupados por vegetação típica da Serra da Cantareira são verificadas também situações de risco de solapamentos, em favelas localizadas próximas aos córregos, como o Jardim Damasceno na região da Freguesia do Ó.
Diante da ocorrência de rochas granitóides na região norte do município de São Paulo, estão mapeadas favelas com risco de queda e atingimento de blocos (blocos e matacões de rocha, com superfície arredondada e formas sub-arredondadas de tamanhos variados, sendo comuns diâmetros que variam de 1 a 3 m) (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 1999).
Essas ocupações desconsideram as normas de parcelamento e uso do solo que regem a ocupação do espaço no município de São Paulo.
A partir do final da década de 60, enquanto se esgotavam as terras mais adequadas para a ocupação urbana (bacia sedimentar terciária), os arruamentos penetraram áreas de solos frágeis, de declividade mais acentuada e com condições impróprias para urbanização e onde houve perda significativa de vegetação protegida por legislação, introduzindo-se assim situações de risco (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 1999).
As áreas de risco de escorregamento na cidade de São Paulo, envolvendo assentamentos precários, foram objeto de mapeamento de risco em 2003 (detalhado pelo IPT), o que possibilitou identificar o total de moradias em situação de alto e muito alto risco. Esse levantamento propiciou a formulação de um plano de ação municipal com medidas estruturais e não estruturais, visando a eliminação ou redução dos riscos.
Em 2010, um novo mapeamento foi realizado pelo IPT para a Prefeitura Municipal de São Paulo visando a atualização das condições de risco presentes, análise das intervenções realizadas e mapeamento de novas áreas de risco identificadas por técnicos municipais. No cenário atual, o município de São Paulo apresenta setores de encosta com alta e muito alta probabilidade de ocorrência de acidentes de escorregamentos em razão do elevado número de áreas de risco, alta concentração populacional nessas áreas, vulnerabilidade da ocupação decorrente da forma e padrão precário das construções e insuficiência de recursos para a execução a curto e médio prazo das medidas de redução de riscos.
Com relação aos outros municípios presentes na RMSP, levantamentos de áreas de risco de escorregamentos têm sido também realizados segundo a mesma metodologia utilizada na cidade de São Paulo, desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para o Ministério das Cidades.
No tocante a esses mapeamentos e considerando também o registro de acidentes e atendimentos emergenciais realizados principalmente nos meses de verão, além do município de São Paulo, os municípios que apresentam vulnerabilidade para acidentes de escorregamentos na região da bacia do Alto Tietê são os seguintes:
a) Região Norte: Guarulhos, Mairiporã, Caieiras, Francisco Morato e Franco da Rocha;
b) Região Leste: Ferraz de Vasconcelos e Guararema;
c) Região Sul: Mauá, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Embu Guaçu e Juquitiba;
d) Região Oeste: Santana do Parnaíba, Osasco, Carapicuíba, Barueri, Itapevi, Jandira, Taboão da Serra, Embu, Itapecerica da Serra e Cotia.
A RMSP sob o ponto de vista das condições fisiográficas apresenta na sua porção central um relevo marcado por colinas com extensas rampas de drenagem cujos terrenos da Bacia Sedimentar de São Paulo são entalhados de forma relativamente suave pelas drenagens afluentes dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, que apresentam várzeas ou planícies de inundação de grande extensão lateral.
As zonas periféricas da RMSP, constituídas por rochas ígneas que se localizam nas bordas da Bacia Sedimentar de São Paulo, apresentam por outro lado relevos mais acidentados onde predominam os morros e morrotes.
São nessas áreas periféricas da RMSP, de relevo mais acidentado, que ocorrem com maior frequência e severidade os processos de movimentos de massa.
O avanço da ocupação urbana, principalmente, por assentamentos precários têm potencializado a instabilidade dos terrenos, aumentando a possibilidade de ocorrência de processos de deslizamento das encostas e originando centenas de áreas de riscos de escorregamentos em todos os bairros periféricos da cidade e na maior parte dos municípios adjacentes.

Vulnerabilidade associada a eventos pluviométricos severos na RMSP


Na RMSP, as principais vulnerabilidades relacionadas com eventos chuvosos estão associadas aos cenários de risco de enchentes, inundações, escorregamentos e outros processos correlatos. Tais processos da dinâmica superficial para serem deflagrados e se tornarem efetivamente fenômenos perigosos dependem de eventos pluviométricos com dada distribuição espacial e volume de precipitação.
Pela observação das ocorrências desses processos na RMSP pode-se notar que, por exemplo, no caso das enchentes, eventos instantâneos associados a chuvas convectivas da ordem de 30 mm em dezenas de minutos ou algumas horas, concentradas numa bacia hidrográfica, são suficientes para deflagrar escoamentos superficiais perigosos com potencial de causar danos. Por outro lado, inundações com permanência de horas ou mesmo vários dias de alagamento das várzeas são geralmente gerados por eventos pluviométricos com totais de chuva mais elevados, cuja condição meteorológica, associada a frentes semi-estacionárias, geralmente perdura por vários dias.
Tais condições meteorológicas com potencial de descarregar chuvas com totais pluviométricos elevados favorecem também a ocorrência de processos de escorregamentos nas encostas. Chuvas com totais pluviométricos superiores a 100 mm/evento e distribuição espacial generalizada são capazes de causar acidentes principalmente nas áreas de risco situadas nas porções periféricas da RMSP.
No sentido de tentar estimar cenários de risco e identificar as vulnerabilidades associadas a eventos pluviométricos severos, foram realizadas análises como a que será exposta a seguir. As análises de risco realizadas para os processos de escorregamento levaram em conta as distribuições pluviométricas, as classes de declividade do terreno e os padrões de uso e ocupação do solo na RMSP .

Distribuição das chuvas na RMSP


Para a realização das análises referentes à distribuição das chuvas na RMSP, foram utilizadas informações extraídas do banco de dados de hidrometeorologia do DAEE, relacionadas ao período entre 1973 e 1997. Estes dados apresentam a melhor densidade espacial e homogeneidade temporal de informação pluviométrica diária sobre a RMSP e adjacências, com um total de 93 estações pertencentes à Agência Nacional de Águas (ANA) e, fundamentalmente, ao DAEE.

Na busca de respostas sobre a intensidade e frequência de eventos chuvosos extremos, utilizou-se a distribuição espacial da frequência de precipitações extremas (eventos iguais ou maiores a 100 mm/dia).
Com a distribuição dos pontos de medição e suas coordenadas geográficas, foi conduzida uma operação de interpolação dos dados para obtenção do mapa que pode ser visto na Figura 34 e que apresenta a seguinte compartimentação de frequências de chuvas extremas (Tabela 4).
A Figura 34 mostra que a recorrência típica para eventos chuvosos extremos na cidade de São Paulo são tipicamente associados à área azul, que abrange aproximadamente o vale do rio Tietê, Pinheiros e do Tamanduateí, onde se situa a maior parte da zona impermeabilizada da cidade de São Paulo (mancha urbana). Em média, esta área tem apresentado historicamente eventos maiores que 100 mm/dia pelo uma vez a cada quatro anos.

Figura 34: Recorrência típica para eventos chuvosos de 100 mm/dia
Fonte: Interpolação dos dados fornecidos pelo DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) e ANA (Agencia Nacional de Águas)



Deve-se observar, porém, que mesmo no interior da mancha urbana da metrópole, existem áreas mais propensas a eventos chuvosos extremos.
É o caso da área situada no sopé da Serra da Cantareira, onde ficam os bairros do Jaçanã e Campo Limpo, ou em Suzano, onde a recorrência de chuvas extremas é aproximadamente bienal.
Outro lugar fortemente propenso a chuvas extremas é a região de São Lourenço da Serra na zona sudoeste da RMSP (área em laranja), que pode apresentar recorrência anual de chuvas extremas da ordem de 100 mm/dia.
Nas encostas da Serra do Mar, entre a RMSP e o Litoral, observa-se uma recorrência tão acentuada de eventos extremos, que não se pode nem mesmo atribuir raridade a essas chuvas de 100 mm/dia. De fato, a recorrência de tais eventos nas encostas da Serra do Mar poderia ser medida em meses ao invés de anos (área vermelha do mapa).
A faixa urbana (azul) da RMSP é menos afetada por chuvas extremas que suas áreas vizinhas (faixas amarelas e laranjas), mas esta mancha urbana está hoje cercada, tanto ao norte/ noroeste como ao sul/ sudeste por faixas muito mais propensas a eventos extremos de chuva.
Observe que o crescimento da mancha urbana da RMSP em direção à Serra da Cantareira (zona norte do município de São Paulo) e para o lado transposto desta serra (município de Cajamar, Franco da Rocha, Perus, Caieiras, Francisco Morato, Mairiporã) irá aumentar a vulnerabilidade da população em virtude das consequências de eventos chuvosos associados à declividade acentuada, como veremos a seguir.
Na direção sul/sudeste, transpondo o ABC e Mauá, indo em direção a Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, haverá situação semelhante à que se observa na região norte.
Resume-se que a mancha urbana da RMSP está hoje situada numa área cuja propensão aos danos derivados de eventos extremos (maiores que 100 mm/dia) é moderada, mas qualquer expansão urbana dessas áreas resultará e aumento de todos os riscos que possam decorrer da exposição aos eventos extremos de chuva.

Aspectos da vulnerabilidade relacionados à declividade


Como foi explicado anteriormente, para analisar as vulnerabilidades das áreas urbanas relativas aos processos da dinâmica superficial é necessário se conhecer as condições do meio físico que controlam tais processos nas áreas de baixada e de encosta.
Os principais fatores naturais que condicionam a ocorrência de escorregamentos estão relacionados às características do relevo de uma dada região.
A RMSP apresenta, principalmente nas suas regiões periféricas, terrenos com topografia acidentada que compreendem morros e morrotes com altas amplitudes relativas e declividades acentuadas (típicas de encostas).
Para a identificação dessas diferentes unidades de relevo foram trabalhados dados do meio físico referentes à declividade. Assim, para a macroanálise da suscetibilidade dos terrenos a processos de escorregamentos, a declividade foi o fator de referência usado para identificar a maior ou menor probabilidade de ocorrência de processos de deslizamentos.
Na construção do mapa de declividades da RMSP, foram consideradas as curvas de nível do terreno que deram origem ao Modelo Digital de Terreno (MDT) com pixels de 30 x 30 metros (a partir de técnicas de interpolação com auxílio de Sistemas de Informações Geográficas - SIG). Este MDT foi posteriormente “tratado” através da aplicação do modelo denominado “Height Above Nearest Drenage” (HAND).
Como mencionado no Capítulo 6, este modelo computacional nivela as linhas de drenagem ou cursos d’água do terreno para o nível zero e remapeia todos os demais pontos da topografia de acordo com a distância vertical relativa a este nível (RENNO, et al, 2008; NOBRE, et al., 2011). Dessa maneira, obtêm-se os pontos de confluência, ou seja, para onde a água superficial escoaria até encontrar os locais de concentração ou acúmulo. Do mesmo modo, através deste modelo obtêm-se os pontos onde o escoamento superficial pode ser mais intenso/veloz devido à declividade acentuada dos terrenos.
Para a análise das condições de declividade sujeitas a deslizamento foram consideradas basicamente três classes de declividade, conforme relacionado a seguir:
Classe 1: 5º a 15º
Classe 2: 15º a 30º
Classe 3: maiores que 30º
A classe 1 representa uma região de baixas declividades na porção central. Nestas áreas em azul (Figura 35), concentram-se os terrenos com baixa suscetibilidade a escorregamentos. Isto se deve a estrutura ampla das várzeas e adjacências dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Ao redor desta região, sobretudo em direção ao norte e ao sul/sudeste, existem áreas que mostram aspectos geomorfológicos de relevo acidentado, ou seja, muito suscetíveis a escorregamentos (áreas em vermelho).
Atualmente, estas regiões são pouco ocupadas ou predominantemente ocupadas por propriedades rurais, chácaras e/ou comunidades de baixa renda. As áreas em amarelo, embora pouco visíveis, apresentam declividades intermediárias e situam-se quase exclusivamente nos sopés de colinas e outros acidentes de relevo.
O que é extremante importante ressaltar aqui é o fato de que existe uma relação entre os diferentes tipos de chuva que atingem a RMSP e as características do relevo da região.
As chuvas frontais14, por exemplo, que chegam à MSP na forma de frentes frias vindas do oceano, tentam ultrapassar a barreira da Serra do Mar, mas muitas vezes, devido à altitude, permanecem estacionadas acima da serra, local conhecido por chuvas constantes.

Figura 35: Classes de declividade da RMSP



No caso da Serra da Cantareira (zona norte da RMSP), Serra do Mar (zona sul) e de São Lourenço da Serra (zona oeste) podem ocorrer, ainda, chuvas orográficas (ou estacionais)15 tambémchamadas de “chuvas de serra” ou “chuvas de relevo”. Essas chuvas ocorrem quando os ventos quentes e úmidos se elevam e se resfriam pelo encontro de uma barreira montanhosa (são considerados locais de chuvas frequentes).
Assim, as áreas mais afetadas por esses dois tipos de chuva (frontais e orográficas) são as áreas de declive mais acentuado, justamente aquelas mapeadas em vermelho (situações mais críticas) tanto no mapeamento de distribuição das chuvas como das classes de declividade.
Quando, eventualmente, essas chuvas ultrapassam a Serra do Mar ou da Cantareira, atingem a região mais urbanizada da RMSP, que seriam as áreas em azul localizadas no mapa de declividade (como as áreas de baixa declividade) ou no mapa de distribuição de chuvas (não recorrentes a 4 anos).
Outro tipo de chuva que atinge a parte mais central da RMSP é denominada de chuva convectiva16 ou “chuva de verão”, muito comum na região Sudeste do Brasil. São provocadas pela intensa evapotranspiração de superfícies úmidas e aquecidas17 (como cidades, florestas e oceanos tropicais). Essas chuvas podem ocorrer na forma de tempestades convectivas associadas à entrada de brisa marítima ao final da tarde.
As considerações a respeito das características das chuvas associadas ao tipo de relevo são importantes para o entendimento da dinâmica natural do sistema (como este opera de diferentes formas e porque).
Nesse sentido, compreendem-se os motivos que levam a concluir que, em locais com declividade acentuada, devem-se respeitar os limites e/ou retrições legais impostos ao uso e ocupação do solo. Tais motivos (ou fatores) foram considerados por especialistas do IPT, como veremos no próximo tópico deste capítulo, referente a riscos associados ao uso do solo.

Padrões de uso e ocupação do solo associados a riscos de deslizamento


O uso de solo é um dos aspectos mais complexos, que interfere significativamente nos riscos de escorregamento da RMSP. Para entender a situação dos riscos de deslizamento em associação com o uso do solo, partiu-se, inicialmente, do mapa de uso e ocupação do solo fornecido pela EMPLASA. Esse mapa foi reclassificado em três categorias ou classes de risco de escorregamento, de acordo com análises realizadas por especialistas do IPT (Figura 36) e que serão explicitadas a seguir.
As classes de uso do solo foram submetidas à avaliação de seis especialistas do IPT através da aplicação de uma “lista de avaliação” relativa a usos distintos associados às potencialidades de risco de escorregamento. Esses especialistas realizaram essa avaliação de risco potencial baseando-se em suas experiências individuais de campo (todos com experiência mínima de cinco anos).
A lista de avaliação (Tabela 5) foi estruturada dentro da lógica de uma “árvore de decisão” (Figura 37), ou seja, para cada uso do solo considerado foi realizada a associação com os respectivos fatores deflagradores (relativos à chuva e declividade).
Desse modo, para cada uso do solo têm-se diferentes declividades e compartimentações de chuva (de 100 mm/dia) associados.

Figura 36: Classes de uso do solo associadas a risco de deslizamento na RMSP





Figura 37: Quadro esquemático referente à árvore de decisão



Foi solicitado que cada um dos especialistas atribuísse pesos de 0,01 a 1 (Tabela 6) conforme critérios abaixo relacionados para riscos
associados a diversos tipos de uso e ocupação.
1 = É quase impossível que aconteça um movimento do terreno
2 = É improvável que aconteça um movimento do terreno
3 = É possível que aconteça um movimento do terreno
4 = É provável que aconteça um movimento do terreno
5 = É muito provável que aconteça um movimento do terreno As respostas dos especialistas foram submetidas a um programa desenvolvido matematicamente para verificar a consistência e as médias dos resultados, conforme detalhado a seguir.
As pontuações médias foram repartidas em três categorias de vulnerabilidade (categorias suscetíveis ao risco 1: baixo, 2: médio e 3: alto) que deram origem ao mapeamento anterior (Figura 36).
Na Tabela 6 podem ser observadas as classes de uso do solo e os pesos atribuídos (ou considerados) pelos os especialistas para cada tipo de uso do solo de acordo com critérios acima mencionados.


Em termos de uso e ocupação do solo, os deslizamentos que ocorrem na RMSP podem ser classificados basicamente em dois ambientes distintos: aqueles que ocorrem nas favelas e os que acontecem nos bairros periféricos onde prevalecem autoconstruções.
Nas favelas, os deslizamentos estão associados ao fato de que as habitações são precárias e estão em áreas clandestinas, áreas ocupadas por barracos sem estrutura (ou cálculo estrutural) e muitas vezes construídas em aterros realizados de forma inadequada (sem critérios construtivos), instaladas em terrenos de alta declividade (instáveis).
Geralmente, estão localizadas em áreas públicas ou verdes (institucionais, áreas de preservação ou lazer), instaladas em cabeceiras de drenagem em terrenos muito inclinados e úmidos. As autoconstruções ocorrem em bairros periféricos de relevo acentuado com vertentes muito inclinadas com edificações sem estrutura adequada.

Risco de deslizamento: integração das informações

Para a análise integrada dos fatores acima mencionados adotou-se a média geométrica ponderada refente as pontuações realizadas pelos especialitas, ou seja, considerando a Equação 1:

Equação 1 - Modelo de riscos geométrico ponderado



Onde:
pC = Peso para a categoria frequência de chuvas maiores que 100 mm/dia
pD = Peso para a categoria declividade
pU = Peso para a categoria Uso e Ocupação do solo e
pC + pD + pU = 1
A análise das “listas de avaliação” (dos especialistas) obedeceu ao critério de “duplo cego”, ou seja, cada um dos especialistas consultados não sabia e ainda não sabe os resultados dos demais e o aplicador também não sabe quem preencheu uma das listas.
Os resultados de cada especialista foram submetidos a um programa de computador que, por análise combinatória (step = 0,01 com a restrição ), selecionou pesos para cada um dos fatores de modo que a diferença entre os resultados da Equação 1 e as respostas de cada especialista fosse mínima.
Para fins de aplicação no software de avaliação combinatória criado, a Equação 1 foi modificada para a padronização entre 1 e 4, ao invés da variação entre 0 e 1, ou seja, somente para fins de simplificação da comparação entre as respostas dos especialistas, que preferiram selecionar notas entre 1 e 4 ao invés de 0 e 1, a equação foi modificada para:

Equação 2 - Modelo de risco de escorregamento repadronizado para produzir valores entre 1 e 4



A análise das “listas de avaliação” (dos especialistas) obedeceu ao critério de “duplo cego”, ou seja, cada um dos especialistas consultados não sabia e ainda não sabe os resultados dos demais e o aplicador também não sabe quem preencheu uma das listas.
Os resultados de cada especialista foram submetidos a um programa de computador que, por análise combinatória (step = 0,01 com a restrição ), selecionou pesos para cada um dos fatores de modo que a diferença entre os resultados da Equação 1 e as respostas de cada especialista fosse mínima.
Para fins de aplicação no software de avaliação combinatória criado, a Equação 1 foi modificada para a padronização entre 1 e 4, ao invés da variação entre 0 e 1, ou seja, somente para fins de simplificação da comparação entre as respostas dos especialistas, que preferiram selecionar notas entre 1 e 4 ao invés de 0 e 1, a equação foi modificada para:
Observe que a modificação não apresenta qualquer alteração nos valores que devem ser aplicados nos pesos pC; pD e pU. Tabulando os valores dos pesos que simularam as respostas dos especialistas foram obtidos os resultados da Tabela 7:


Equação 3 – Modelo final para estimativa de risco de escorregamento na RMSP



Deste modo, aplicando-se a média dos pesos calculados a partir das enquetes com especialista, pode-se obter um modelo capaz de categorizar áreas de risco com resultados aproximadamente iguais aos especialistas, se estes fossem limitados somente ao trinômio (chuvas, declividade, ocupação). Vale lembrar que o modelo é ainda simplificado em relação à opinião dos especialistas, na medida em que estes últimos consideram diversos outros fatores, quando executam seus trabalhos em campo.
O mapeamento de risco de deslizamento foi gerado por método geoestatístico de krigagem no software ArcGis 9.6, através da integração dos mapeamentos anteriormente produzidos relativos a distribuição de chuvas, classes de declividade e categorias de uso do solo (com ponderação dos especialistas) conforme Equação 3.
A integração desses fatores possibilitou identificar as áreas vulneráveis ao risco de deslizamento na RMSP (Figura 38).

Figura 37: Quadro esquemático referente à árvore de decisão



Cabe destacar que este estudo é “qualitativo”. Para um estudo quantitativo faltariam informações mais detalhadas em escalas apropriadas sobre a coesão e espessura de solo, pedologia, nível do lençol freático e a presença de evidências de pequenos movimentos condicionantes, que podem fazer diferença no que se refere à confiabilidade das previsões de escorregamentos.
Entretanto, como se verificou, os cenários de vulnerabilidade associados a riscos de escorregamento na RMSP mostram que se mantidas as condições ou padrões atuais de uso e ocupação do solo deverá haver um aumento significativo do número de pessoas expostas a esses riscos (em áreas com declividades acentuadas suscetíveis aos processos naturais deflagrados por eventos meteorológicos cada vez mais intensos).
Para fazer frente a essas projeções há que se tentar mudar o modelo atual de urbanização com medidas mais eficazes de planejamento e controle, adotando medidas que sejam continuamente executadas para efetivamente reduzir as situações de vulnerabilidade.
Nesse sentido, os programas de redução de riscos devem ser executados nos municípios da RMSP, através de políticas e planos estratégicos integrados, que possam melhorar a capacidade (dos poderes públicos locais) de implantação de medidas mais eficazes de controle do uso e ocupação evitando o aumento das vulnerabilidades socioambientais na RMSP.
Deve-se ainda incrementar as políticas públicas habitacionais e urbanísticas para erradicação das áreas de risco considerando a possibilidade de um aumento de ocorrências de eventos pluviométricos mais severos e frequentes.
E também melhorar os sistemas de monitoramento e gestão de riscos e de tomada de decisão baseando-se em planos preventivos de defesa civil e de contingência específicos, visando a remoção das pessoas que habitam “áreas de risco” quando da iminência de ocorrência de fenômenos geológicos e hidrológicos adversos.

14. Estas chuvas são causadas pelo encontro de uma massa de ar fria (e seca) com outra quente (e úmida), típicas das latitudes médias, como as de inverno no Brasil que caminham desde o Sul (Argentina) e se dissipam no caminho podendo, eventualmente, chegar até o estado da Bahia. Por ser mais pesado, o ar frio desce e o ar quente (mais leve) sobe. Com a elevação da massa de ar quente e úmida, há um resfriamento da mesma que condensa e precipita.

15. São comuns nos litorais, paranaense, catarinense e paulista e em todo o litoral brasileiro na Serra do Mar. Esse tipo de precipitação pode estar associada a presença do efeito Föhn, que condiciona a existência de áreas mais secas a sotavento dessas barreiras.

16. Precipitação convectiva é comum na região Sudeste, particularmente sobre a RMSP e sobre a Região Metropolitana do Rio de Janeiro onde ocorrem tempestades associadas a entrada de brisa marítima ao final da tarde com graves consequências sobre as centenas de áreas de risco.

17. A RMSP pode ser considerada uma área extremamente aquecida devido à impermeabilização do solo (materiais que retém muito calor estão presentes em toda a superfície), relacionada também o fenômeno das ilhas de calor urbano.